
Capa em ótimo estado de conservação. Exemplar autografado, com dedicatória manuscrita do autor Jorge Cláudio de Almeida Cabral na página de rosto.
Antes de virar um dos nomes mais discutidos da MPB, Belchior deu pelo menos três guinadas bruscas na própria vida. Nascido em Sobral, no Ceará, em 1946, chegou a viver três anos como seminarista no Mosteiro de Guaramiranga, adotando o nome de Frei Antônio de Sobral e estudando filosofia num convento em Fortaleza. Deixou o hábito em 1966, entrou na Faculdade de Medicina dois anos depois, e abandonou o curso em 1971 para virar compositor em tempo integral. De seminarista a estudante de medicina a músico: raro currículo consegue somar tantos recomeços antes dos 25 anos.
Os primeiros sinais de talento vieram cedo. Em 1971, venceu o Festival Universitário da Canção Popular, da TV Tupi, com "Na Hora do Almoço". No ano seguinte, levou o Troféu Bandolim de Ouro no Festival Universitário. Prêmio de plateia estudantil é só um começo, mas costuma ser o primeiro sinal de que alguém tem algo raro pra dizer.
Foi nesse período que nasceu a parceria com Raimundo Fagner. Belchior levou a letra de "Mucuripe" até o amigo, apelidado por ele de "Magro", num bar em Fortaleza; Fagner voltou no dia seguinte com a melodia pronta. A canção venceu o Festival de Música da Ceub em 1971 e depois seria gravada por Elis Regina e Roberto Carlos. A amizade, porém, não sobreviveu inteira: décadas depois, Fagner confirmaria em biografia própria que os dois chegaram a brigar fisicamente, motivados por uma disputa boba envolvendo um casaco.
Em 1971, Belchior chegou ao Rio de Janeiro quase sem recursos, dormindo em casa de amigos e parentes. Foi assim, tentando mostrar o próprio trabalho, que conseguiu uma audiência com Elis Regina em São Paulo. Gravou cerca de vinte músicas no estúdio dela, e Elis, impressionada, decidiu incluir "Como Nossos Pais" no próprio repertório. A canção saiu em versão de Belchior no álbum Alucinação e na voz de Elis no álbum Falso Brilhante, os dois lançados em 1976. Um clássico que a cantora tornou tão seu que hoje é difícil imaginar outra voz cantando aqueles versos.
Alucinação também rendeu a Belchior sua primeira grande exposição de mídia: trinta mil cópias vendidas no primeiro mês, e "Apenas Um Rapaz Latino-Americano" liderando as rádios de São Paulo e Rio por seis semanas seguidas. Somando as faixas do disco, incluindo "A Palo Seco" (que já aparecia no álbum de estreia de 1974) e "Fotografia 3x4", o total ultrapassou 500 mil cópias vendidas. Anos depois, o próprio Belchior diria ao jornal O Pasquim que aquele foi o disco mais bem-sucedido da carreira.
Depois de Alucinação vieram outros tantos discos ao longo dos anos 1970 e 1980: Coração Selvagem (1977), Todos os Sentidos (1978), Era uma Vez um Homem e o Seu Tempo (1979), Objeto Direto (1980), Paraíso (1982), Cenas do Próximo Capítulo (1984), Melodrama (1987), Elogio da Loucura (1988) e Bandeira do Telhado (1990). Uma sequência de lançamentos quase anuais que poucos artistas brasileiros sustentam por tanto tempo.
Também gravou em espanhol. Eldorado, de 1992, reúne Belchior com a dupla uruguaia Larbanois e Carrero, pela Movieplay, um disco quase desconhecido no Brasil que mostra o quanto a carreira dele extrapolava os limites do português.
Entre os discos menos comentados da carreira está Baihuno, de 1993, dezesseis faixas lançadas pela Movieplay sob produção de Jorge Gambier. Uma delas, "Arte Final", assinada com Graco e Jorge Mello, pergunta em verso: "A saída será mesmo o aeroporto?". Anos antes de qualquer fuga real para o Uruguai, Belchior já ensaiava em letra a pergunta que a própria vida faria questão de responder depois.
Três anos depois veio Vício Elegante, de 1996, lançado pela GPA Music/Paraíso e hoje considerado raro entre colecionadores. É um disco de regravações, canções de outros compositores que Belchior escolheu interpretar: "Almanaque", de Chico Buarque; "Esquadros", de Adriana Calcanhotto; "Charme do Mundo", de Marina Lima e Antônio Cícero; e "Paixão", de Kleiton e Kledir.
A partir de 1994, Belchior formou parceria musical com o violonista mineiro Gilvan de Oliveira, que o acompanhou por mais de dez anos. Dessa fase saiu Um Concerto Bárbaro: Acústico e Ao Vivo, de 1995, com uma versão de "Águas de Março", de Tom Jobim, encaixada como trecho incidental dentro da própria "Hora do Almoço". A mesma faixa também integra Jobim em Vários Tons, coletânea de vários artistas em homenagem a Tom Jobim lançada pela Movieplay em 1995, sob produção de Jorge Gambier, o mesmo produtor de Baihuno. Em 1999, os dois gravaram Um Concerto a Palo Seco, reeditado em 2006 como Belchior Acústico: doze faixas de voz e violão com arranjos lindíssimos assinados por Oliveira, revisitando clássicos como "Alucinação", "Tudo Outra Vez" e "Divina Comédia Humana". Foi o último álbum de estúdio gravado por Belchior em vida.
O fim veio de um jeito bem menos sonoro. Em 2006, Hélio Rodrigues, empresário artístico de Belchior por quase trinta anos, mudou-se para a Espanha; no ano seguinte, o cantor cortou contato até com ele e passou a dedicar boa parte do tempo a um projeto pessoal, a tradução de A Divina Comédia, de Dante Alighieri, para uma linguagem mais popular. O trabalho consumiu cerca de três anos e ficou pelo caminho: em março de 2009, Belchior abandonou a casa alugada onde funcionava o escritório, computador e tradução incompleta inclusos.
Nesse mesmo período, Belchior abandonou compromissos profissionais e deixou pra trás os quatro filhos que teve ao longo da vida, dois do casamento de 35 anos com Ângela e outros dois de relações fora dele. Passou a acumular dívidas de pensão alimentícia à ex-mulher e à mãe de uma das filhas, além de uma ação trabalhista de cerca de R$ 1 milhão movida por um ex-funcionário. Fugiu para o Uruguai, virou alvo de mandados de prisão no Brasil, e viveu anos sem endereço fixo: abrigado em instituição de caridade, hospedado em casa de fãs, itinerante. Entre fevereiro e julho de 2013, o advogado Jorge Cláudio de Almeida Cabral o hospedou em sua propriedade em Guaíba, no Rio Grande do Sul, por cerca de cinco meses.
Foi nesses cinco meses em Guaíba que Jorge Cláudio registrou boa parte do convívio em vídeo, material que hoje aparece no próprio livro por meio de QR codes espalhados pelas páginas; o leitor lê o relato e assiste ao registro ao mesmo tempo. Belchior seguiria depois por outros endereços, até se estabelecer em Santa Cruz do Sul, onde morreu em 30 de abril de 2017, encontrado pela companheira Edna Prometeu na sala de casa. Segundo a perícia, a causa foi natural, provável dissecção de aorta, e ele havia adormecido ouvindo música clássica.
Este livro nasceu exatamente desses cinco meses que a biografia oficial não cobre: é o relato de quem dividiu casa, rotina e silêncio com Belchior num recorte específico da vida dele. Jorge Cláudio de Almeida Cabral nasceu em Porto Alegre. É advogado atuante há mais de trinta anos, e também assina poemas publicados no Recanto das Letras, alguns deles reproduzidos no próprio livro. É o anfitrião que testemunhou de perto o artista fora do palco, e resolveu registrar o que viu. Daí o subtítulo: a história que a biografia não vai contar.
Lançado em 27 de outubro de 2017 na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, com uma segunda sessão de autógrafos na Feira do Livro da cidade em novembro daquele ano, o livro chegou às livrarias com 228 páginas e quase meio quilo. Volume que se sente na mão antes de abrir a primeira página. Quem já tinha outras biografias de Belchior na estante costuma repetir uma observação parecida: o livro evita tanto a idolatria quanto a exposição barata, tratando o artista com admiração e senso crítico ao mesmo tempo, sem procurar culpado pelo afastamento do ídolo nem poupar as contradições dele.
Belchior também pintava. Ao longo da vida produziu mais de dez mil desenhos, gravuras, caricaturas e retratos, a maior parte deles nunca exibida ao público; chegou a expor doze autorretratos numa mostra batizada de Autorretrato, em 1999, mesmo ano da coletânea de mesmo nome. Ele mesmo assinou a capa de discos próprios, caso do fundo azul de Alucinação. Faz sentido, então, que o próprio livro reproduza um poema de Jorge Cláudio chamado "Tela da Vida", conversa direta com um artista que também enxergava a própria existência como algo pra ser pintado.
Livros assim raramente chegam ao leitor com esse tipo de proximidade. Eles guardam relato de primeira mão, testemunho de quem esteve na sala ao lado, e uma dedicatória manuscrita do próprio Jorge Cláudio, autor deste livro, na primeira página deste exemplar específico. Ler sobre isso é bom. Segurar o volume assinado na mão, sabendo que quem escreveu apertou a mão de Belchior todos os dias por mais de um ano, é outra experiência inteiramente diferente.
Esse livro pode ser seu agora, junto com essa história capaz de mudar a forma como você escuta "Como Nossos Pais" da próxima vez. Abra na dedicatória, leia o relato de quem viu o fim de perto, e descubra o outro lado de um dos discursos mais citados da MPB.
PS: Belchior já rendeu mais de um livro, e cada um conta a história de um jeito. Para os dados de carreira, prêmios e cronologia deste texto, além do relato pessoal de Jorge Cláudio, também recorremos a Jotabê Medeiros, Belchior: Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), a biografia jornalística que o subtítulo deste livro provavelmente tem em mente, a Ângela Belchior e Estêvão Zizzi, Antonio Carlos Belchior - Biografia (2023), relato de memórias assinado pela irmã do cantor, e a Chris Fuscaldo e Marcelo Bortoloti, Viver é Melhor que Sonhar: os Últimos Caminhos de Belchior (Sonora Edições, 2021), reportagem sobre o período de exílio que atravessa boa parte das cidades por onde ele passou.
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