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CD Kid Abelha — Meio Desligado

Ótimo estado de conservação: caixa, encarte e mídia bem preservados.

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Kid Abelha nasceu carioca, em 1981, do tipo de história que só acontece quando um namoro universitário decide virar banda. Paula Toller conheceu Leoni na PUC-Rio, e o rapaz já tinha um grupo chamado Chrisma, com baterista e guitarrista próprios. Paula superou a timidez para cantar, e o nome escolhido por votação entre os integrantes foi Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens, prova de que rock brasileiro dos anos 80 nunca levou o próprio batismo a sério. Fala sério, como diria o saudoso Bussunda.

O saxofonista George Israel entrou logo depois, e a formação foi se ajeitando aos trancos: saiu um guitarrista, entrou Bruno Fortunato, e a banda apareceu na coletânea "Rock Voador" ao lado de outros nomes que também estavam começando a incomodar as rádios do país. Em 1983 veio o compacto com "Pintura Íntima", vendendo mais de cem mil cópias e rendendo o primeiro disco de ouro do grupo. O sucesso comercial chegou rápido, cedo demais para qualquer banda calcular as consequências.

O álbum de estreia, "Seu Espião", saiu em 1984 e trouxe "Fixação" e "Alice (Não Me Escreva Aquela Carta de Amor)", faixas que ainda hoje tocam em toda rádio que se preze de nostalgia oitentista. "Alice" nasceu da mesma pena coletiva de Leoni, Paula e Bruno Fortunato, um pedido dramático para que a tal garota guardasse a carta de despedida na gaveta, personagem de ficção que muita gente jura reconhecer numa vizinha antiga. Foi produzido por Liminha, nome que aparece com frequência suspeita na ficha técnica dos melhores discos brasileiros daquela década. A banda virou sensação nacional antes mesmo de completar três anos de existência.

Em 1985, no primeiro Rock in Rio, aconteceu o anúncio que mudaria o grupo para sempre: Leoni, principal compositor e um dos fundadores, estava de saída. O festival aconteceu bem no momento em que o país trocava general por civil na Presidência, fim formal do regime militar coincidindo, por acaso de calendário, com o fim de uma era dentro da própria banda. Perder o letrista principal costuma ser sentença de morte para qualquer banda pop. Paula Toller e George Israel decidiram o oposto, assumindo juntos a composição e mantendo o trio vivo ao lado de Bruno Fortunato. Em 1987 veio "Tomate", primeiro fruto dessa nova parceria, prova de que talento de sobra às vezes só precisa trocar de assento.

Paula Toller comandava um grupo de sucesso numa cena dominada por vozes masculinas. Legião Urbana, Barão Vermelho, Titãs e os próprios Paralamas do Sucesso tinham homens no microfone principal, o que tornava a presença dela à frente do Kid Abelha praticamente uma exceção dentro do rock brasileiro daquela geração. Virar cantora principal de uma fábrica de hits nesse cenário exigia talento dobrado, porque a plateia media com régua diferente.

Nessa mesma época, Paula viveu outro capítulo que deixaria marca no repertório do grupo: o namoro com Herbert Vianna, dos Paralamas do Sucesso, entre 1985 e 1987. Do término nasceu "Nada Por Mim", composta pelos dois, gravada primeiro por Marina Lima e depois regravada pelo próprio Kid Abelha em 1986. Herbert chegou a comentar, décadas depois, que a canção marcou o fim daquela fase e que ficou surpreso ao ouvi-la tocando o Brasil inteiro. Essa mesma faixa está entre as versões acústicas do "Meio Desligado", prova de que certas dores voltam a ser cantadas em público anos depois, travestidas de sucesso.

A história dos dois rendeu mais faixas do que apenas essa. Ainda no auge do namoro, Herbert já dividia crédito de composição em "Educação Sentimental (Parte II)", ao lado de Paula e Leoni. Depois da separação, o desabafo ganhou outro peso no álbum Bora-Bora, de 1988: a faixa-título imagina a ex numa praia distante ao lado de outro homem, e "O Beco" embute confissões pessoais dentro de uma letra sobre violência urbana. Duas outras faixas do mesmo disco, "Uns Dias" e "Quase Um Segundo", tratam abertamente da fase de excessos que Herbert enfrentou logo depois do fim do relacionamento. Namoro de faculdade nenhum costuma render tanto material de estúdio.

Em 1994, o Kid Abelha resolveu fazer o próprio disco acústico, mas sem pedir licença à MTV. Enquanto outras bandas brasileiras corriam atrás do selo "Acústico MTV" para validar essa moda, o grupo simplesmente gravou os próprios shows entre março e julho daquele ano, passando por seis cidades diferentes, e finalizou os arranjos em casa, no estúdio caseiro batizado carinhosamente de Som de Neguin'. Uma banda acostumada a gravar ligada nos amplificadores decidiu se apresentar batizada de "Meio Desligado", ironia que nenhum departamento de marketing teria coragem de sugerir sozinho. Fazer sucesso sem depender de emissora de televisão é o tipo de detalhe que passa despercebido, mas diz muito sobre autoconfiança.

O ano de 1994 carrega peso histórico próprio: foi quando o Plano Real chegou para conter uma inflação que corroía salário e paciência de qualquer brasileiro. Enquanto o país trocava de moeda no meio do calendário, o Kid Abelha estava em estrada, gravando voz e violão em teatro lotado, apostando que sentimento vende mais do que efeito especial. A aposta funcionou: "Meio Desligado" saiu em novembro daquele ano e virou o disco mais vendido da carreira até então.

O encarte reúne participações que hoje soam quase improváveis juntas. Sérgio Dias, dos Mutantes, é coautor da faixa de abertura, "Deus (Apareça na Televisão)", composta ao lado de George Israel e Paula. Ritchie empresta a voz para "Como Eu Quero". Lulu Santos aparece em "Canário do Reino", regravação de uma canção antiga de Carvalho e Zapatta que já pertencia ao imaginário popular antes mesmo do Kid Abelha existir. Atrás dos convidados famosos, uma banda de apoio menos citada segurava as pontas. Mauricio Gaetani cuidava do piano e do acordeon, enquanto Odeid ficava no baixo. Serginho soprava o trombone e Lui Coimbra dava o toque erudito com o cello, o tipo de time que faz disco acústico soar cheio sem parecer produção de estúdio.

A faixa "Cristina" é assinada por Carlos Imperial e Tim Maia, dupla de compositores que atravessou décadas de música popular brasileira sem perder relevância. Já "Solidão Que Nada" nasceu de parceria direta entre George Israel, Nilo Romero e Cazuza, o que transforma a faixa numa espécie de carta de despedida cantada por quem ficou. "Grand' Hotel" ganhou arranjo de cordas assinado por Wagner Tiso, parceiro histórico de Milton Nascimento e do Clube da Esquina, detalhe que eleva uma canção já melancólica para outro patamar de beleza.

O álbum vendeu cerca de quinhentas mil cópias, conquistando o primeiro disco duplo de platina da trajetória do grupo. Para uma banda que começou como piada de faculdade, virar recordista de vendas com um disco só de voz e violão é o tipo de ironia que dispensa qualquer explicação.

Anos depois desse álbum, em 2009, Paula viveu outro momento que mudaria sua rotina: um exame de rotina apontou diabetes tipo 1, diagnóstico que a levou a se tornar hoje uma voz ativa em causas ligadas à doença. O guitarrista Dado Villa-Lobos, da Legião Urbana, convive com a mesma condição desde os onze anos de idade, prova de que rock brasileiro e disciplina com insulina caminham juntos há mais tempo do que se imagina.

Histórias assim raramente aparecem soltas por aí, esperando alguém disposto a recontar. Elas moram dentro de um objeto físico, com participações especiais gravadas ao vivo e arranjo de cordas que ninguém ouve igual pela internet. Ler sobre isso é bom. Segurar o disco na mão, sabendo exatamente quem tocou o quê em cada faixa, é outra experiência inteiramente diferente.

Esse álbum pode ser seu agora, junto com essa história capaz de arrancar suspiro até de quem jura odiar nostalgia. Toque no aparelho de som e julgue com as próprias orelhas se voz e violão bastam.

PS: pesquisar sobre banda de rock brasileiro é sempre um exercício de garimpo, separando o que virou lenda de fã do que realmente aconteceu em estúdio. Para este texto, a referência usada foi: Ricardo Alexandre, Dias de Luta: O Rock e o Brasil dos Anos 80 (Arquipélago Editorial, 2013), livro que reconstrói parte da trajetória do grupo dentro do panorama mais amplo do rock brasileiro daquela década.

As faixas que compõem essa relíquia estão catalogadas abaixo, para quem gosta de saber exatamente o que está prestes a colecionar:

Faixas

  1. Deus (Apareça na Televisão)
  2. Alice (Não Me Escreva Aquela Carta de Amor)
  3. Gosto de Ser Cruel
  4. Como Eu Quero
  5. Porque Não Eu
  6. Seu Espião
  7. Eu Tive um Sonho
  8. O Beijo
  9. Cristina
  10. No Meio da Rua
  11. Nada Por Mim
  12. Grand' Hotel (Introdução)
  13. Grand' Hotel
  14. Solidão Que Nada
  15. Canário do Reino
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