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Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (5ª edição)

Capa dura, em ótimo estado de conservação. Volume completo, com todas as páginas presentes.

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No Brasil, a palavra "aurélio" virou sinônimo de dicionário. Poucos autores conseguem essa proeza: o nome próprio abandona o dono e passa a designar a própria categoria do objeto, do jeito que aconteceu com gilete ou danone. Um professor de português, nascido em Alagoas, conquistou esse feito sem nunca ter pedido.

Aurélio Buarque de Holanda Ferreira nasceu em Passo de Camaragibe, em 1910, e mudou-se ainda criança para Maceió. Aos quatorze anos já dava aula particular de português. Aos quinze, ingressou oficialmente no magistério, convidado pelo Ginásio Primeiro de Março. Era primo de segundo grau de Chico Buarque, parentesco que raramente aparece nas manchetes, mas que ajuda a entender uma família inteira apaixonada por palavra e som.

A carreira de professor se estendeu por décadas: quase trinta anos lecionando no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, moldando gerações de estudantes antes mesmo de pensar em compilar um dicionário próprio. Ao longo da vida, reuniu uma biblioteca pessoal de dez mil livros e escreveu, à mão, milhares de fichas com vocábulos e definições, método artesanal que hoje soa quase heroico numa era de busca automática.

O trabalho de lexicógrafo começou décadas antes da publicação do dicionário que carrega o nome dele. Nos anos 1930, colaborou no levantamento de brasileirismos para outra obra de referência. Só em 1975 apareceu o Novo Dicionário da Língua Portuguesa, primeira edição com pouco mais de cento e vinte mil verbetes, projeto de uma vida inteira condensado em volume só.

O sucesso comercial surpreendeu até a editora. Passou de cinco milhões de exemplares vendidos até 1986, somando as diferentes versões do dicionário, e ultrapassou quinze milhões até o fim da parceria com a Nova Fronteira, em 2003. Poucos livros de referência no mundo alcançam esse tipo de número sem depender de escola obrigando aluno a comprar.

Em 2003, a viúva de Aurélio vendeu os direitos de edição para o Grupo Positivo, encerrando quase três décadas de parceria com a Nova Fronteira. A transição veio acompanhada de barulho jurídico: colaboradores entraram na justiça pedindo reconhecimento de coautoria, disputa que chegou ao Superior Tribunal de Justiça e terminou confirmando Aurélio como autor legítimo da obra, com os assistentes reconhecidos apenas como auxiliares de pesquisa. Até dicionário de língua portuguesa, aparentemente, pode virar novela judicial.

Este exemplar específico é a quinta edição, lançada pela Editora Positivo em 2010, ano do centenário de nascimento do autor. A publicação reúne milhares de abonações e exemplos inéditos, vocábulos novos de áreas como informática, genética e culinária, revisão completa conforme o Acordo Ortográfico, e um projeto gráfico que homenageia a trajetória pessoal de Aurélio: cada abertura de letra do alfabeto traz fotografia comentada dele em fase diferente da vida.

O acabamento físico reforça a ambição do projeto. Capa dura reforçada, lombada espessa o bastante para aguentar décadas de consulta diária, e chave de acesso incluída para versão eletrônica, recurso que em 2010 ainda soava como luxo tecnológico. Segurar esse volume na mão é perceber, fisicamente, o peso de uma vida inteira dedicada a definir palavra por palavra.

Livros de referência raramente contam história tão pessoal quanto essa. Um professor alagoano, obcecado por vocabulário desde adolescente, terminou dando nome ao próprio ato de consultar significado. Ler sobre isso é bom. Segurar o volume na mão, folheando página amarelada de tanto uso ou impecável de tanta preservação, é outra experiência inteiramente diferente.

Esse dicionário pode ser seu agora, junto com essa história capaz de fazer até quem vive longe de livro de referência há anos sentir vontade de procurar uma palavra difícil só para ver a definição. Abra na primeira página, releia o prefácio, e descubra por que um sobrenome virou substantivo comum.

PS: quando um autor vira sinônimo do próprio objeto, a linha entre biografia e mitologia fica embaçada. Os dados históricos e datas deste texto foram checados na Enciclopédia Itaú Cultural e na Wikipédia, fontes que reúnem o material documental mais completo disponível sobre a trajetória de Aurélio Buarque de Holanda, autor sem biografia dedicada de grande circulação até hoje.

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