
Ótimo estado de conservação: capa, encarte e disco bem preservados.
No dia em que a Legião Urbana foi fotografar a capa de "O Descobrimento do Brasil", alguém roubou o carro de Dado Villa-Lobos bem em frente ao estúdio, levando junto o bandolim que ele usaria na sessão. A banda teve que arranjar outro instrumento às pressas, num dos poucos casos documentados de assalto interferir diretamente na arte de um disco de rock nacional.
O cenário era um campo de flores montado especialmente para a ocasião, com cada integrante fantasiado de um jeito. Renato Russo apareceu como cavaleiro medieval. Dado se vestiu de caçador, segurando o bandolim emprestado às pressas. Marcelo Bonfá completou o trio de camponês, e o fotógrafo Flávio Colker capturou tudo isso com a missão de transmitir leveza, num momento em que a banda vinha de anos pesados demais para qualquer disco explicar sozinho.
Sexto álbum de estúdio do grupo, gravado entre agosto e outubro de 1993 nos estúdios Discover, no Rio de Janeiro, sob produção de Mayrton Bahia ao lado da própria banda. Saiu pela EMI-Odeon em 20 de dezembro daquele ano, período em que o país ainda respirava aliviado pelo fim recente do governo Collor, como quem sai de uma ressaca coletiva.
O título carrega um sentido pessoal. Renato havia passado por internação buscando se livrar do álcool e das drogas, episódio que inspira diretamente a faixa de abertura, "Vinte e Nove". A canção guarda duas leituras possíveis: uma remete aos dias que ele passou internado, outra ao conceito astrológico de retorno de Saturno, ciclo que se completa por volta dos vinte e nove anos de vida. Renato preferia deixar a ambiguidade em aberto, coisa rara num compositor conhecido por dizer exatamente o que pensava.
O disco é dedicado a Tavinho Fialho, baixista que acompanhou a banda na turnê anterior e morreu num acidente de carro naquele mesmo ano, uma semana antes do nascimento do próprio filho, Chicão, fruto de uma relação com a cantora Cássia Eller. "Love in the Afternoon" nasceu como homenagem direta a ele, um tributo discreto dentro de um álbum que também fala de recomeço.
Na hora de gravar, os três resolveram trocar de posto entre si. Bonfá saiu da bateria por algumas faixas e foi para os teclados. Dado experimentou dobro e bandolim, instrumentos que normalmente ficariam fora do repertório de um guitarrista de banda de rock. Renato gravou uma participação na cítara, épocas em que músico de sucesso ainda tinha coragem de errar em público só para aprender coisa nova.
A Legião também foi uma das primeiras bandas brasileiras a usar o Pro Tools em estúdio, ferramenta que hoje qualquer adolescente com notebook manuseia sem pestanejar, mas que em 1993 soava como ficção científica para quem vinha de fita analógica. Era também o primeiro disco do grupo sem Jorge Davidson como diretor artístico da EMI-Odeon, substituído por João Augusto bem no meio de uma fase de tensão entre banda e gravadora. Para completar a ironia, a própria EMI havia vendido a fábrica de discos e passou a prensar o material na Fonobras, pertencente à concorrente PolyGram. Gravar um disco sobre recomeço numa empresa que terceirizava a própria fabricação para o time rival é o tipo de coincidência que nenhum departamento de marketing inventaria de propósito.
O encarte fecha com uma frase parafraseando um verso de Bob Dylan, tirado de "My Back Pages", sobre envelhecer e rejuvenescer ao mesmo tempo. A banda também agradeceu a Léo Jaime, creditado com o nome grafado errado, por ter emprestado o próprio dobro para as gravações. Detalhe pequeno, mas revela como aquele disco foi feito com ajuda de amigos, literalmente.
O álbum recebeu certificação de platina, com mais de meio milhão de cópias vendidas no Brasil, embora algumas fontes divirjam sobre o número exato de discos de platina conquistados. Diferentes catálogos contam a história de um jeito diferente, prova de que até estatística de vendas vira lenda com o tempo.
Histórias assim raramente vêm com todos os detalhes combinando entre si. Elas moram dentro de um objeto físico, com fotografia de campo de flores, instrumento roubado e trocado às pressas, e três músicos trocando entre si funções que raramente ocupavam. Ler sobre isso é bom. Segurar o disco na mão, sabendo o preço real que cada faixa custou para existir, é outra experiência inteiramente diferente.
Esse álbum pode ser seu agora, junto com essa história boa o bastante para render conversa até com quem nunca ouviu falar de retorno de Saturno. Guarde na estante e escute sabendo exatamente quanta vida real está escondida atrás de cada faixa.
PS: todo disco carrega uma ficha técnica oficial e uma segunda história, invisível no encarte, sobre o que aconteceu enquanto o gravador estava ligado. Para separar as duas, usamos como referência: Chris Fuscaldo, Discobiografia Legionária (2016, editora LeYa), que reconstrói os bastidores de gravação de cada álbum da banda, incluindo este.
As faixas que compõem essa relíquia estão catalogadas abaixo, para quem gosta de saber exatamente o que está prestes a colecionar:
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